Um recente artigo feito pelo professor Vicenç Navarro, catedrático de Políticas Públicas da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona), e publicado no jornal “Le Monde español”, faz uma análise de como começou a crise econômica atual, segundo ele nos Estados Unidos da América (EUA), que está molestando a vida de muita gente. O autor atribui duas causas básicas: a enorme polarização da renda iniciada nos anos 1980 e que atinge a máxima desigualdade no início deste Século; e a desregularização do Sistema Financeiro mediante a anulação da Lei “Glass Steagall Act”. Lei esta estabelecida após a grande crise de 1929 com o objetivo de diminuir o “poder dos bancos” e proteger a economia da população.
Os dados da concentração de renda nos EUA no ano de 2005, segundo o professor, voltaram ao patamar do período antes da Grande depressão econômica (certeza que, como a atual crise, provocou todo tipo de depressão) na década de 1920. Nos dados apresentados pelo docente, 1% da população norteamericana tinha, em 2005, 28% da renda total daquele país (No Brasil, um dos países mais desigual do mundo, em 2008, os 10% mais ricos detinham 75,4% da riqueza total, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA).
Após a segunda Guerra Mundial algumas medidas no sentido de reduzir as desigualdades foram tomadas pelo então presidente americano (apesar de comumente utilizarmos o termo “americano”, é errado. Pois americanos, também, somos nós, só que da América do Sul) Roosevelt, com importante impacto redistributivo em que a renda dos ricos baixou 12% até o final da década de 1970. Especialmente nas décadas de 1960 e 1970 a classe trabalhadora “adquiriu grande poder”. Neste período houve um grande número de mobilização dos trabalhadores. Como sempre acontece no sistema capitalista, quando os trabalhadores ganham um “maior poder” os empresários ficam na defensiva e, como era de se esperar, responderam. A primeira resposta da ação empresarial ocorreu no início dos anos 1980, quando o presidente do Banco Central Norteamericano (BCN) criou uma recessão a fim de aumentar o desemprego e debilitar a classe trabalhadora. O presidente do BCN ao afirmar que “tinha que diminuir os custos laborais (custos do trabalho) para redudir a inflação”, afirmava claramente sua posição, afirma o professor.
A medida mais rápida para a ação do BCN (e em muitos países, não se enganem!) foi aumentar os juros bancários, o qual resultou numa redução dos investimentos e, consequentemente, do crescimento da economia.
Bom, em resume os Governos norteamericanos ( e da grande maioria dos países, inclusive Brasil) após os anos 1980 seguiram uma visão em que o Estado deveria favorecer abertamente as rendas superiores (dos ricos). Isso foi seguido ao pé da letra em todo mundo. Não se enganem!!! Prevalecia o famoso pensamento “Trickle Down”, onde afirmava que a riqueza criada favorecendo aos ricos acabava favorecendo a todos os demais. Seja sincero(a): conhece alguma situação, ao seu redor ou não, em que “os demais” foram favorecidos?
Na verdade houve um aumento das desigualdades sociais em todo mundo, o poder aquisitio dos trabalhadores foi aos poucos desaparecendo e a “saída/solução” foi pedir (de certa forma forçado a pedir) dinheiro emprestado aos bancos (para os bancos “emprestar” aos ricos) e a ter acesso a cartão de crédito. Você conhece, hoje em dia, alguém que não possui algum tipo de cartão? Pois é! com isso a dívidas das classes populares foi crescendo de uma maneira que o valor real (porcentagem) de sua renda foi diminuindo. Conhece, também, alguém que não passou (ou está passando) por essa situação? Se fizéssemos um estudo sobre a dívida média da renda disponível de cada pessoa, acredito que teríamos resultados surpreendentes e um tanto desagradáveis.
Bom, com esse relato até aqui, de histórias de crises econômicas, já dá pra perceber que quando uma crise se inicia nos EUA atinge todo mundo. Não entraremos no porquê disso, somente dizer que, como já sabemos, “poder econômico é poder político” e vice-versa. Daí deriva a conclusão de que não é bom para a democracia de qualquer bairro, distrito, cidade, região, país, etc, que haja grandes desigualdades na distribuição de suas rendas (depois dedicarei um texto sobre isso).
Voltando ao artigo do professor, ele coloca que os ricos exercem grande poder e influência sobre os políticos e, continua, “isso ocorre com maior intensidade naqueles sistemas eleitorais que estão privatizados”. Ou seja, o financiamento das eleições é feito, primordialmente, com dinheiro privado. As empresas (os empresários) “dão” dinheiro aos políticos e a seus partidos para que se elejam. Segundo os dados do professor, as últimas eleições dos EUA custaram 3.500 milhões de dólares, provenientes dos grandes grupos financeiros. Você acha que é Obama quem governa?
Em relação ao Brasil, a pesar de não dispor de dados, acredito que os valores são, também, absurdos. No Rio Grande do Norte (RN), também não tenho dados, mas assiti uma apresentação do colega professor Fransualdo, da UERN, sobre financiamento das campanhas eleitorais e o valor do voto no RN, trabalho se sua tese, onde mostrou valores, também, assustadores, considerando o tamanho do estado. O Certo é que em todos os níveis, de vereador a presidente do país, essa prática é “comúm”. Até nas eleições para Conselheiro Tutelar, “órgão autônomo” para garantir os direitos da criança e do adolescente, tem financiamento, tanto privado como dos políticos de plantão (certamente com dinheiro público), para garantir o poder de decisão destes naquele órgão. Cheguei a presenciar isso em Pau dos Ferros (RN), em mais de uma gestão. Quanta coisa absurda!
Agora raciocinemos: com todas essas “doações” existe a possibilidade de administrações democráticas (em qualquer um desses órgãos)? Se conhecer, por favor, me diga.
Na prática não sabemos para onde ir. No Brasil, teríamos condições de financiar as eleições somente com dinheiro público para, supostamente, acabar com o poder econômico sobre o poder político? Isso seria possível, considerando as práticas políticas e os políticos que temos? Não estaríamos sendo um pouco repetitivos por que, na prática, o público já financia as campanhas, pós-campanhas, a riqueza dos políticos e a reprodução de suas famílias? Recorda o que está passando no Congresso? com vários escândalos de corrupção e, o pior, sabemos que isso não é de agora.
É uma situação difícil de (tentar) entender. O pior é que todos, público e privado, se financiam antes, durante e depois das eleições. Até por que não se sabe até que ponto um é público ou privado. São partes de um só. Mas, esse “um só”, é público ou privado? Eis a questão que deixo você reflexionar para o debate e, quem sabe, juntos encontrarmos uma resposta. Aguardo nos comentários.
Até breve!